CAETITÉ

Acabar com o racista é a solução?

No dia 25 de janeiro de 2024, a cidade de Caetité ficou chocada com o absurdo cometido por um lojista local. O indivíduo publicou uma nota inaceitável em seu perfil no Instagram, anunciando uma vaga de emprego exclusiva para mulheres, maiores de idade, solteiras, sem filhos e que se autodeclarassem brancas. Além disso, ele exigiu que a candidata fosse gentil, dócil e possuísse experiência comprovada. O anúncio foi amplamente criticado nas redes sociais.

Além dessa atitude condenável, há relatos nas redes sociais que indicam que o lojista possui comportamentos extremamente inadequados. Segundo alguns relatos, ele trata mal os clientes e outras pessoas na região onde sua loja está localizada, na praça do mercado.

Mas será que crucificar esse indivíduo ultrapassado resolverá o problema do racismo?

É importante lembrar que Caetité tem uma figura ilustre em sua história, o jurista, intelectual, educador e escritor brasileiro e ex-ministro da educação Anísio Teixeira. Sua antiga casa é hoje um museu e um espaço cultural na cidade. Na parte inferior da casa, é possível observar uma estrutura que remete a uma senzala, onde os escravos eram mantidos. Anísio nasceu em 1900, apenas algumas décadas após o fim oficial da escravidão no Brasil em 1888. Esses vestígios históricos nos lembram que a escravidão deixou marcas profundas, e sua abolição não eliminou imediatamente as injustiças e desigualdades sociais.
Ao explorarmos a praça matriz da cidade, nos deparamos com um monumento conhecido como Pelourinho, local onde os escravos eram torturados. Essas estruturas históricas são testemunhas das atrocidades cometidas no passado recente e nos lembram que o racismo está enraizado em nossa cultura e em nossas instituições.

TODO ESSE CONTEXTO HISTÓRICO ESTÁ RELACIONADO AO RACISMO DO LOJISTA. MENOS DE 130 ANOS ATRÁS, A ESCRAVIDÃO PERSISTIA EM CAETITÉ, ONDE OS NEGROS ERAM TRATADOS COMO ANIMAIS. TALVEZ VOCÊ, QUE ESTÁ LENDO ESTE TEXTO, TENHA UM ANTEPASSADO RECENTE QUE ERA AQUELE QUE CHICOTEAVA UM ESCRAVO NA PRAÇA DA CATEDRAL.

Como homem branco, reconheço que estou em constante processo de desconstrução do racismo enraizado. Durante minha juventude, testemunhei casos de racismo contra amigos negros e colegas LGBTQ+ na escola. Isso demonstra como o preconceito estava arraigado e normalizado em nossa sociedade há apenas duas décadas. É importante questionar se esse lojista é o único racista em Caetité. Ou será que ele apenas verbalizou nas redes algo que muitos de nós ainda carregamos dentro de nós mesmos?

A condenação pública do lojista é necessária para destacar a gravidade do racismo e incentivar ações concretas de combate à discriminação racial. No entanto, devemos evitar a tentação de transformá-lo em um bode expiatório, desviando o foco do problema sistêmico que persiste em nossa comunidade.

Assim como a página de fofocas CHOQUEI, que recentemente contribuiu para a tragédia envolvendo Jessica Canedo, uma jovem de 22 anos vítima de linchamento virtual, é fundamental que a mídia exerça sua responsabilidade social com ética e sensibilidade. O linchamento virtual e o cancelamento indiscriminado podem ter consequências devastadoras, levando indivíduos à tragédia. O mais irônico é que a mesma página responsável pela morte da jovem repostou o crime cometido pelo lojista de nossa cidade.

O combate ao racismo requer uma abordagem multifacetada, que inclua educação, conscientização e políticas públicas eficazes. Devemos trabalhar em conjunto para construir uma sociedade mais justa e inclusiva, onde todas as pessoas sejam tratadas com dignidade e respeito, independentemente de sua cor de pele ou origem étnica.

Acabar com uma pessoa não é a solução, a raiz do preconceito começou na escravidão, onde homens resolveram destruir um semelhante e escravizá-lo.

Por Danilo Diogo

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